quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Falando em dinheiro


Será que ainda é chique dizer: "Não trabalho com dinheiro, sou um artista"?. Os últimos acontecimentos indicam que não, e a venda de várias grifes para holding é comum, como já aconteceu no exterior com as grifes de luxo e que acontecem ultimamente aqui também.
"Ninguém quer saber da coleção, todo mundo só pergunta de negócios", diz Herchcovitch, quem vende suas duas marcas ao grupo Identidade de Moda (I'M), que também comprou Zoomp, Zapping, Fause Haten, Clube Chocolate e Cumplice.
O dono da ER e ex-socio da Vicunha e CNS, comprou a marca de calçados Zeferino. A Ellus de Nelson Avagenga se juntou com a In Brads, que comprou recentemente a grife 2andFloor, e negocia 50% da marca Isabella Capeto. Para a produtora Patrícia Kurati, "Por causa das preocupações financeiras dos grupos, as peças vão ficar menos conceituais e mais próximas ao publico", se isso acontecer, declaro minha insatisfação, abaixo trechos da entrevista de Herchcovitch que acredita que a venda de suas grifes traz democratização.

ALCINO LEITE NETO
Editor de Moda, da Folha de S.Paulo

"Nem este cabide me pertence mais", diz o estilista Alexandre Herchcovitch no escritório de sua loja nos Jardins, em São Paulo. Ele aparenta tranqüilidade e está muito otimista com seu futuro. "Tudo que eu sonhei poderá se realizar a partir da agora", afirma, a seguir. Para o estilista, a venda de suas duas grifes --Herchcovitch; Alexandre e Herchcovitch Jeans-- aponta para uma maior democratização na moda. "As pessoas vão ter muito mais acesso às roupas", diz.

FOLHA - Porque você decidiu vender suas marcas? Sua empresa ia bem financeiramente?

ALEXANDRE HERCHCOVITCH - Sim, ia bem. Não vendi porque precisava de dinheiro. Vendi porque eles vão fazer uma injeção de capital que eu levaria décadas para conseguir fazer. Com isso, as duas marcas [Herchcovitch; Alexandre e Herchcovitch Jeans] vão tomar um novo rumo, e tudo que eu sonhei poderá se realizar a partir de agora. Eu demorei 20, 15 anos para construir essas marcas, e sinto que estou começando uma segunda etapa na minha vida, quando poderei concretizar os meus sonhos.

FOLHA - Quais são eles?

HERCHCOVITCH - A marca vai ganhar uma presença mundial muito maior, já a partir do próximo desfile que farei em Nova York, em fevereiro. Também vamos abrir uma loja em Nova York neste ano e uma flagship nos Jardins, nos mesmos moldes da que existe em Tóquio.

FOLHA - Até agora, os exemplos de estilistas que venderam suas marcas não resultaram em experiências bem-sucedidas no Brasil. Você tomou cuidados a este respeito?

HERCHCOVITCH - Sim. Na verdade, a minha preocupação foi que o grupo que está comprando as marcas entendesse exatamente o que elas são e onde elas podem chegar, para que não houvesse uma expectativa errada nem ilusões de ambos as partes. Porque não adianta você comprar a marca Herchcovitch; Alexandre achando que ela vai ser do tamanho da C&A. Eles entenderam perfeitamente e eu estou muito confiante.

FOLHA - Sua marca é conhecida pela liberdade de estilo. Você não tem medo de perder esta liberdade?

HERCHCOVITCH - Não, porque a marca foi comprada pelo que ela é. E ela é isso: é livre. Se esse aspecto for mudado, a marca também muda. Então, essa liberdade será preservada. Mesmo porque eu vou estar na direção criativa. A marca têm um conjunto de características que fizeram com que o grupo se interessasse por ela, e não por outra. Ela não é apenas uma marca, tem uma personalidade e uma força que podem ser exploradas comercialmente. Agora, o presidente do grupo e os acionistas, que estão acima de mim, têm uma idéia do tamanho que ela pode ter no futuro.

E eu, como diretor de criação, junto com os demais diretores, buscarei este objetivo. Por isso, é óbvio que, para a marca crescer "x" vezes, teremos que enxergar o mercado como ele é. Se tenho que atingir mais pessoas, terei que ofertar uma gama maior e mais democrática de produtos. E eu vou ofertar.

FOLHA - Então ela poderá ficar mais comercial?

HERCHCOVITCH - Sim. Poderá haver uma sofisticação do prêt-à-porter com a marca Herchcovitch; Alexandre, assim como poderá haver um crescimento da acessibilidade e da democratização da marca Herchcovitch Jeans. Para você ter uma idéia do que representam as mudanças, até ontem a minha coleção teria 250 itens. Agora, terá 700 itens. Quando triplica o tamanho da coleção, tudo cresce, aumenta o número de vestidos caros e o número de vestidos baratos. As pessoas vão ter muito mais acesso às roupas.

FOLHA - A aquisição de marcas por grandes grupos favorece a moda brasileira?

HERCHCOVITCH - Muito. Traz profissionalização, competitividade. Marcas que estavam fadadas a morrer não vão morrer mais. Porque existem grifes que, se continuam do jeito que estão, não irão durar dez anos... Além disso, esses grupos trazem gestão, coisa que é muito complicada de se ter numa empresa pequena, familiar, sem diretores por trás dela para pensar o seu futuro.

FOLHA - A gestão familiar de grifes no Brasil está condenada?

HERCHCOVITCH - Acho que sim.

FOLHA - O que sente um estilista ao vender uma grife ao qual está ligado há tantos anos?

HERCHCOVITCH - Eu, pessoalmente, estou me sentindo muito bem. Não tenho apego às coisas. Nem este cabide nem este computador me pertencem mais. Sinto também que meu trabalho vai triplicar e que ele está apenas começando. Acho que os 20 anos que passei construindo a marca foram apenas o ensaio de algo muito maior que vai acontecer comigo daqui para frente.

Os exemplos no exterior são grifes mais turbinas, com o lucro aumentado, o que brasileiros como eu esperam desse negocio em que estilista cria e eles cuidaram do resto.
Lembro de ter lido uma entrevista em que o entrevistado em questão (que não lembro o nome) fica abismado em saber que o Alexandre é brasileiro, e comentou, "mas ele não é tropical". O estereotipo mais uma vez, que a moda brasileira é só biquíni.

Um comentário:

-=Tiago Fidelis Moralles=- disse...

O exemplo acontece com as Agências de Publicidade Nah, os investidores vêm de fora e adquirem parte ou quando não toda a instituição. Eu não tenho tanto (veja bem, tanto) apego com as coisas, mas acho que ficaria triste de tomar tal decisão.
Abraços.